terça-feira, 28 de dezembro de 2010

- versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos)

sábado, 18 de dezembro de 2010

- toda minha saudade e o meu amor de sempre;

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. (Martha Medeiros)


Dizem que quando a saudade já não cabe mais no coração, transborda pelos olhos.
E amor, eu tô transbordando muito, inundando o quarto. Vem me salvar?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

- sobre a fé;

toda religião do mundo opera sobre o mesmo conceito que significa ser um bom díscipulo. [...] os devotos deste mundo executam seus rituais sem garantias de que algo de bom virá deles. [...] devoção é diligência sem segurança. a fé é uma forma de dizer: "sim, aceito previamente a maneira como o universo funciona, e acredito previamente naquilo que hoje sou incapaz de entender". [...] se fé fosse racional, não seria - por definição - fé, a fé é a crença naquilo que não se pode ver, provar ou tocar. fé é mergulhar de cabeça e em velocidade total rumo à escuridão. se de fato conhecêssemos previamente as respostas sobre o sentido da vida, a natureza de Deus e o destino de nossas almas, nossa crença não seria um salto de fé e não seria um corajoso ato de humanidade; seria apenas... uma prudente apólice de seguros.
não estou interessada na indústrias dos seguros. [...] estou pouco me lixando para provas, demonstrações e seguranças. tudo que eu quero é Deus. quero Deus dentro de mim. [...]
ocorreu-me que não adianta muito enviar preces preguiçosas para o universo. [...]
é claro que Deus sabe do que eu preciso. a pergunta é - será que eu sei?
a prece é um relacionamento; metade do trabalho é meu.


- fragmentos do livro comer, rezar, amar.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

- sobre a confiança;

me diz, como que a gente pode confiar em alguém atualmente?
eu vejo um monte de pessoas cansadas e machucadas.
vejo um monte de pessoas acostumadas a machucar.
todo mundo tem uma (ou mais) histórias similares.

fomos condicionados a desconfiar até da nossa sombra.
a confiança morre a cada pequena mentirinha, a cada pequena desconfiança.
morre aos poucos. entende?

da mesma forma ela é construída, conquistada no dia-a-dia.
e com passos lentos. bem lentos, eu diria.
mas por mais que você trabalhe nela, por mais que a solidifique, sempre existirão rachaduras.

a gente sabe que todo mundo mente.
é uma característica intrínseca do ser humano.
é meio que uma questão de sobrevivência, de adaptação.
só que é aí onde as pessoas perdem a noção do limite.

pessoas jogam no lixo relacionamentos(amorosos e amizades) por mentirinhas bobas, meias verdades. pessoas destroem tudo o que haviam contruído por anos em alguns míseros segundos.

não existe "me perdoa?" que faça esquecer. não existe "eu te amo" que faça perdoar. não existe "foi um mentirinha" que não faça doer.

então depois de anos ouvindo as mesmas mentiras, as mesmas desculpas e os mesmos pedidos de perdão, não é de se surpreender que um ser humano tenha dificuldade em acreditar no outro.

nesta porcaria de mundo tudo se perde, até o respeito.


p.s.: se for para mentir e foder com tudo, que seja uma mentira grande, importante. seja homem e não conte uma mentirinha de merda, seu bosta. (isso não é pra alguém específico)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

- é só me pedir;



Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também. Tá me entendendo? Eu sei que sim.

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também!

Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade!

Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir.

Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo.

Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças!

Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena.
Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.

Remar.
Re-amar.
Amar.
- Caio Fernando Abreu